{"id":2491,"date":"2024-09-27T13:52:08","date_gmt":"2024-09-27T16:52:08","guid":{"rendered":"https:\/\/barralparente.com.br\/?p=2491"},"modified":"2024-09-27T13:52:09","modified_gmt":"2024-09-27T16:52:09","slug":"o-dissenso-de-washington-e-a-desordem-comercial","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/barralparente.com.br\/eng\/o-dissenso-de-washington-e-a-desordem-comercial\/","title":{"rendered":"O Dissenso de Washington e a Desordem Comercial"},"content":{"rendered":"
A era de ouro do com\u00e9rcio internacional, que floresceu \u00e0 sombra do p\u00f3s-guerra, est\u00e1 com os dias contados. \u00c9 o que alerta Uri Dadush em seu livro Geopolitics, Trade Blocs, and the Fragmentation of World Commerce<\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n O que este autor descreve n\u00e3o \u00e9 uma simples desacelera\u00e7\u00e3o ou ajuste nas trocas globais, mas um movimento de ruptura profunda. O que antes era o \u201cConsenso de Washington\u201d, um conjunto de diretrizes que norteava a abertura econ\u00f4mica e a globaliza\u00e7\u00e3o, hoje se transforma no \u201cDissenso de Washington\u201d, onde o protecionismo e as disputas geopol\u00edticas ganham for\u00e7a, esfarelando o sistema que j\u00e1 foi sin\u00f4nimo de prosperidade.<\/p>\n\n\n\n Se parece dram\u00e1tico, \u00e9 porque a propor\u00e7\u00e3o da crise \u00e9 tit\u00e2nica. A fragmenta\u00e7\u00e3o do com\u00e9rcio mundial n\u00e3o \u00e9 um evento isolado. Ela \u00e9 o ac\u00famulo de uma s\u00e9rie de crises. A crise financeira de 2008 abalou as certezas sobre o livre mercado e a racionalidade do sistema financeiro. Depois, vieram as tens\u00f5es entre Estados Unidos e China, a pandemia de Covid-19 que paralisou o mundo, e, mais recentemente, a guerra na Ucr\u00e2nia. Cada uma dessas crises adicionou uma camada de desconfian\u00e7a sobre a globaliza\u00e7\u00e3o. Se antes o com\u00e9rcio internacional era visto como um caminho para o crescimento e a paz, agora ele \u00e9 visto, em muitos cantos do mundo, como fonte de desigualdade e instabilidade.<\/p>\n\n\n\n Descrevendo este cen\u00e1rio, Dadush destaca um ponto central: enquanto as evid\u00eancias de que o com\u00e9rcio traz benef\u00edcios s\u00e3o abundantes e datam de s\u00e9culos, os interesses pol\u00edticos locais constituem uma barreira ideol\u00f3gica crescente. A verdade inconveniente \u00e9 que, embora o com\u00e9rcio traga benef\u00edcios para a economia global como um todo, ele n\u00e3o distribui esses benef\u00edcios de maneira equitativa. Setores n\u00e3o competitivos globalmente s\u00e3o esmagados, gerando rea\u00e7\u00e3o pol\u00edtica que pressiona os governos a fecharem suas aduanas. Esquecem-se da frase c\u00e9lebre, segundo a qual \u201cpor fronteiras por onde n\u00e3o passa mercadoria acabam passando soldados\u201d.<\/p>\n\n\n\n Mas o que realmente est\u00e1 na raiz dessa fragmenta\u00e7\u00e3o, segundo Dadush, \u00e9 a rivalidade entre as duas maiores economias do mundo: Estados Unidos e China. N\u00e3o \u00e9 apenas sobre com\u00e9rcio, claro. A disputa \u00e9 por hegemonia geopol\u00edtica, para a qual o com\u00e9rcio \u00e9 elemento crucial. Quando Trump iniciou a guerra comercial com a China, muitos analistas acreditavam numa fase isolada. Mas n\u00e3o apenas a pol\u00edtica econ\u00f4mica norte-americana se voltou para seu mercado interno, abandonando a postura que mantinha desde a Segunda Guerra, quando era o arquiteto das regras do com\u00e9rcio global, como os EUA caminharam mais ainda para um protecionismo expl\u00edcito.<\/p>\n\n\n\n O resultado foi a Organiza\u00e7\u00e3o Mundial do Com\u00e9rcio (OMC) enfraquecida, com disputas que se arrastam e sem uma lideran\u00e7a clara. Pa\u00edses agora se voltam para acordos bilaterais ou regionais, que criam blocos comerciais mais fechados, destruindo a ideia de um sistema multilateral garantindo o acesso aos mercados.<\/p>\n\n\n\n E da\u00ed vem um elemento complicador. A mudan\u00e7a clim\u00e1tica adiciona uma nova camada de complexidade, a descarboniza\u00e7\u00e3o da economia, com novas disputas. Surgem novas barreiras comerciais sob a justificativa de proteger o meio ambiente, criando tens\u00f5es adicionais no sistema comercial global.<\/p>\n\n\n\n Aqui est\u00e1 a grande ironia: o mundo precisa de mais com\u00e9rcio para enfrentar a crise clim\u00e1tica, mas as pol\u00edticas clim\u00e1ticas est\u00e3o levando a mais fragmenta\u00e7\u00e3o. Como alerta Dadush, o mundo ter\u00e1 de escolher entre manter o com\u00e9rcio aberto para bens ambientais ou enfrentar os efeitos devastadores do aquecimento global, incluindo migra\u00e7\u00f5es em massa e colapso econ\u00f4mico.<\/p>\n\n\n\n Apesar do cen\u00e1rio sombrio, Dadush ainda tem esperan\u00e7as. Seria necess\u00e1rio, em primeiro lugar, um entendimento estrat\u00e9gico entre Estados Unidos e China. Sem isso, a fragmenta\u00e7\u00e3o do com\u00e9rcio s\u00f3 tende a piorar. Al\u00e9m disso, Dadush sugere que os governos precisam ser mais proativos em ajudar os perdedores do com\u00e9rcio. Em vez de fechar as portas, eles deveriam fornecer redes de prote\u00e7\u00e3o social mais concretas para trabalhadores e setores que est\u00e3o sofrendo com a concorr\u00eancia global. \u00c9 um equil\u00edbrio delicado, que demandaria uma racionalidade distante da atual polariza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica.<\/p>\n\n\n\n Ao final, o livro de Dadush nos leva a uma conclus\u00e3o inevit\u00e1vel: estamos em uma encruzilhada. O sistema comercial global est\u00e1 sendo erodido por dentro, tanto por disputas geopol\u00edticas quanto por mudan\u00e7as internas nas grandes economias. Somente pol\u00edticas corretas e coopera\u00e7\u00e3o internacional poderiam evitar desintegra\u00e7\u00e3o institucional e a reconstru\u00e7\u00e3o de um sistema comercial mais resiliente e inclusivo. Uma reflex\u00e3o necess\u00e1ria diante das propostas simplistas, e be\u00f3cias, que escutamos de muitos l\u00edderes atualmente.<\/p>\n\n\n\n